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Além do ângulo de Treitz

Considerado a última fronteira da endoscopia, o intestino delgado (ID) aos poucos vai sendo conquistado pelo avanço da tecnologia. Apesar de pouco comuns, as doenças do ID quase sempre são de difícil diagnóstico pela inacessibilidade do órgão à completa inspeção visual. Pelo longo comprimento (3 a 7 metros) e pela posição intermediária entre os extremos do tubo digestivo, o ID destoa do restante dos órgãos tubulares em relação à riqueza de imagens já acumuladas em anos de observação através de endoscopias altas e colonoscopias. Utilizando-se quase que somente de estudos radiológicos contrastados para ser avaliado, com baixa sensibilidade, o ID sempre foi um "desconhecido" do endoscopista. Na tentativa de suprir esta lacuna, a enteroscopia por sonda surgiu durante os anos 80, tendo como agente propulsor o peristaltismo. Um longo e fino fibroscópio era inserido pelo nariz do paciente. Após horas de mudançãs de decúbito e tendo atingido as porções distais do íleo, o exame do ID iniciava-se pela lenta retirada do aparelho, sob visão. A falta de canais  de biopsia, de comandos da ponta e as rápidas e incontroláveis "passagem de alças" limitaram o método. Contudo o ID começou a ser conhecido e diagnósticos realizados.
A introdução de colonoscopios pediátricos trouxe a possibilidade de exames das proporções proximais do ID, pela simples "continuação" da endoscopia digestiva alta. A disponibilidade de um canal de biopsia devolveu ao endoscopista a possibilidade de retirada de fragmentos, bem como a utilização de probes para hemostasia. Finalmente, com a chegada dos enteroscópios, as perspectivas se ampliaram. Medindo cerca de 2,10 metros, o enteroscópio pode ser considerado um longo gastroscópio, com as mesmas características de iluminação e controles, além do canal de biópsias. A introdução pode ser realizada da maneira habitual a de uma endoscopia alta, porém recomenda-se o uso de um longoovertube a fim de previnir loopings no estômago e ampliar a inserção no delgado. Para ser eficiente, este overtube deve ser locado no duodeno proximal. Esta manobra requer cuidados e casos de pancreatite traumática, perfuração do duodeno e lacerações do estômago já foram com o uso deste dispositivo. Contudo, inserções superiores a 100 cm além do ângulo de Treitz são frequentemente possíveis.
Os sangramentos digestivos obscuros sem dúvida sobressaem-se dentre as patologias que se beneficiam de uma melhor avaliação endoscópica do ID. Definido pela Associação Americana de Gastroenterologia como "a presença de sangramento digestivo que persiste ou recorre sem causa definida após avaliação inicial negativa colonoscópica e/ou endoscópica alta", pode apresentar-se através de perda visível de sangue ou anemia ferropriva e/ou presença de sangue oculto nas fezes. Acometendo geralmente pacientes na terceira idade, esta condição tem como principal etiologia malformações arteriovenosas no intestino delgado. Pelo caráter crônico e intermitente, estas lesões são de difícil detecção por outros meios como cintilografia e angiografia. A visualização direta das lesões pela enteroscopia constitui, pois, o método diagnóstico ideal, além de permitir também o tratamento das mesmas com uso de heater probes ou bicaps. A sua multiplicidade, porém, exige constantes revisões e tratamentos. Trabalhos da literatura mostram que existe uma relação direta entre profundidade de inserção e achados diagnósticos. Portanto, o uso de enteroscópios ao invés de colonoscópios e o uso do overturbe parecem melhorar a acurácia do método. Considerando-se sangramento digesti-

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vo, artigos publicados mostram taxas de diagnóstico variando entre 38 e 80%. É importante mencionar que muitos destes diagnósticos são feitos no trato digestivo superior, ao alcance de uma endoscopia digestiva alta. Daí a sugestão de repetí-la antes de indicar a enteroscopia, segundo protocolo da Associação Americana de Gastroenterologia para avaliação de hemorragia digestiva obscura.
A investigação de quadros diarréicos pode também se beneficiar da enteroscopia, principalmente quando as lesões não assumem caráter hemogêneo no intestino delgado. Apesar de raros, os tumores do ID, benignos ou malignos, quase sempre são identificados em laparotomias exploradoras ou em casos avançados. Tumores metastáticos também já foram descritos no ID. Nestes casos, o exame radiológico contrastado tem sua sensibilidade aumentada e pode ter a enteroscopia como confirmação diagnóstica. Outra grande indicação é a utilização para realização de jejunostomias endoscopicas. Confeccionadas de maneira semelhante as gastrotomias, estas levam a vantagem de não induzirem refluxo gastro-esofagico e suas conseqüências. A necessidade de localizar-se um segmento jejunal rente à parede abdominal pode necessitar de iserção profunda do aparelho, passível de ser alcançado com os longos enteroscópios. Colangiopancreatografias em pacientes com y-de-Roux também são facilitados pelo mesmo motivo.
A lacuna ainda deixada pelos enteroscópios pode ser diminuida pela enteroscopia intra-operatória. Com todos os fatores de morbidade envolvendo o procedimento, este método ainda tem suas indicações e apresenta taxas de sensibilidade de até 70%, com o adjuvante de poder indicar tratamento definitivo e radical para muitos achados. Realizado per os ou através de uma enterotomia, o enteroscópio é manuseado pelo endoscopista que ganha o auxílio do cirurgião na retificação das alças. Além disto, a transiluminação favorece o achado de lesões menosres através da serosa. Com o advento da videolaparoscopia, o método pode tornar-se mais atraente, porém a mesma acurácia precisa ser conquistada e a necessidade de anestesia geral o torna ainda assim um procedimento de risco.
Contrastando com a complexidade da enteroscopia intra-operatória, em breve o endoscopista poderá dispor de um novo aliado. Desenvolvida conjuntamente por Ingleses e Israelenses e em fase de aprovação pelo FDA, a pílula endoscópica promete revolucionar o diagnóstico de patologias do ID. Através de um dispositivo sofisticado de geração de luz, captura  e transmissão de imagens miniaturizado, contidos em uma cápsula de 30 / 11 mm, imagens seqüênciais de todo o intestino delgado podem agora ser obtidas. Esta capsula deve ser ingerida pelo paciente que estará conectado a um portátil sistema de captura de imagens, como numa phmetria de 24 horas, exceto pelo fato de que não há fios. A transmissão é feita por microondas. A tecnologia atual permite geração de imagens por até 6 horas. Um software analisa as imagens e permitirá editá-las de modo a desconsiderar períodos em que não haja movimentação peristáltica. Mais uma vez, abre-se nova perspectiva no diagnóstico das doenças do ID. Em que pese a impossibilidade terapêutica do método, estudos em pacientes deverão mostrar seu real valor, que parece promissor. Quanto à terapeutica, aguardemos a evolução da tecnologia como fizemos com a Enteroscopia por Sonda.

Arnaldo Braga
Mayo Clinic - Rochester, USA